Garoa

Sentei em um ponto de ônibus, era  um daqueles dias chuvosos em que nada parece  estar no lugar, parece até que a chuva sai de baixo só para enxarcar melhor o pé.

Mas era um clima  xkscjlkdscp mesmo assim, porque a garoa no inverno deste lugar faz a atmosfera parecer mais mística, mais paulistana.  Mas não é do dia, nem da cidade  que se trata esta carta, então continuo no ponto…

Sentei.  Se aproximou um homem que dizia estar procurando um dicionário de grego antigo pela região.

Pensei:  Ahn… por que essas pessoas que tem guarda- chuvas voadores sempre aparecem na minha vida?

Talvez porque num dia cinzento em que a fumaça parece escurecer o humor,  sempre algo pode acontecer para colorir a vida…não só uma pessoa, talvez uma nuvem, uma flor, um livro ou uma lembrança.

Fato é que esse ser tão inesperado do ponto de ônibus queria dividir lembranças. Lembranças de um mundo hippie, em que se lia o Pasquim. Não é possível se esquivar de alguém que divide memórias, seria como se livrar de um capital incalculável, de um bem intangível. Seria recusar uma pincelada de cor em um dia cinza. Impossível.

Nos dias cinzas, há sempre uma aquarela… os pingos da garoa sempre podem ser coloridos. Não acredito em coincidências.

Sem mais,

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Entre sacos e gangorras

O que rola é que de vez em quando até os sacos mais fundos são preenchidos por algo que expulsa o ar fresco.

 Seria fácil falar que às vezes todos nós cansamos de algum tipo de situação, mas não é tão simples assim… primeiramente, porque aquilo que preenche o saco pode ser um ato, uma pessoa, uma palavra, ou até mesmo, o próprio dono do saco espontaneamente.

  Acho (cá entre nós) que este ser que escreve se encaixa melhor no último quadro – acontece o seguinte, o mundo todo é regido pela teoria da gangorra. Não ilustre leitor, não se trata de uma aula de física, é apenas uma compreensão de uma brincadeira de crianças, em que às vezes alguém sobe e alguém desce.

A vida é regida pela gangorra – porque se todos ficarem sentados sem impulsionar, ninguém se diverte e o mundo não gira. É preciso ser generoso para que o outro se alegre e é preciso que o outro tenha o mesmo nível de compreensão da engenhoca para te alegrar, ou, mais do que isso, o mesmo nível de doação.

Acontece que por vezes, alguns seres – por algum tipo de sentimento, pensamento, ou coisa que o valha- decidem sempre segurar a gangorra mais embaixo, afinal… não ceder dói, dizer não dói… ah e claro que sim… são muitos anos de um ensino que ultrapassa o religioso, culminando na automutilação. A mutilação dos próprios sonhos, pelos sonhos de outrem. 

É aí que entro em “o próprio dono preenche o saco espontaneamente”. UFA!!! Até que enfim uma reação a esse estado patético. Você não achava que eu tinha este estado de saco cheio como danoso, achava??? Na verdade ele é pura libertação! É nele que se podem tirar as vendas do dever, da ultra doação e gritar: “Caralho! Deixa eu subir nessa gangorra porra!”

É justo que todos brinquem igualmente no playground da vida (nossa que frase brega!), sim é! Os amigos de verdade não vão ligar de descer (eles só vão se assustar com a frase gritada acima), enfim, vão descer por você … e os aproveitadores vão se afastar,  ótimo (eu não quis focar muito nos aproveitadores, mas eles existem).

Apenas voltando ao tema inicial: Saco cheio…

Bendito seja o saco cheio, amém!

Viole a embalagem!

Primeiro foi um olhar de relance em um site de relacionamentos… esse olhar me mostrou uma infinidade de pessoas lindas . Não!  Me mostrou uma infinidade de pedaços lindos de pessoas complexas, pessoas que com uma pinça selecionam uma imagem dentro do espectro de suas próprias almas a ser representante do todo… essa parte é que será aceita pelos consumidores da sociedade, ou seja, por mim, por você, por nós todos. Eu não nego – seleciono também a minha parte – não quero ficar encostada na prateleira! Antes de cair em desuso, pretendo me reposicionar. Meu “eu produto” sabe que precisa se vender, é cruel e é real. Poderia tomar agora uma atitude demagoga e dizer: “Abaixo a embalagem!” mas não estaria sendo leal com minha própria prática. Tudo o que posso dizer agora é  ” Viole a embalagem”, nisso consiste o ritual de encontrar o conteúdo, os espectros, os pedaços, os mosaicos de gente… dentro dos sacos plásticos há seres de todos os tipos, mas só se consegue descobrir o conteúdo abrindo. Poderá então, inclusive, ser ignorado o prazo de validade. Validade de gente é eterna.

entreatos

Mesmo fugindo da temática tão exploratória do “EU” recorrente nos último tempos de Sagarana, decidi escrever sobre “Entreatos”  doc de João Moreira Sales que acompanhou o processo de eleição do Lula.

É incrível assistir a todo esse processo a esta altura do campeonato, certamente, muito mais rico agora que já se passaram tantos mensalões e tantas brigas de galo do Duda Mendonça, personagem  chave no filme.

A parte mais  sensacional de ser um observador de um momento no passado,  é poder conferir a maneira nem tão lenta com que as máscaras são jogadas em precipícios. Isso vale para qualquer coisa na vida.

Fato é que o filme faz pensar sobre a maneira como surgem os líderes, sobre como o sistema  obriga que  o homem entre em sua ciranda e sobre o ponto em que estamos hoje: em que para governar é preciso desgovernar/corromper. 

De qualquer forma, não será a vida uma grande eleição? 

Basta viver para entrar na ciranda das escolhas, das barganhas e da governabilidade da própria existência. Dentro disso tudo, seguramente só recomendo que se deixem de lado os galos de briga – desta vez,  brigaremos nós mesmos.

Atenciosamente,

Sociedade Protetora dos Animais

Eu recomendo Super Bonder

Estranho falar sobre a quantidade de sonhos que se tem… quer dizer,  mais do que dos sonhos , das projeções e  das imaginações.

Se por um lado ser uma pessoa imaginativa traz a possibilidade de inventar e reinventar , de criar e de fazer acontecer, por outro, também se projetam ansiedades,  antecipam-se os medos e vive-se  um pouco além do presente – antecipando um futuro que provavelmente não será  – já que só o presente é.

Isso não é  a proclamação do  fim do  sonho. Alto lá!!! É apenas um motim a favor do  fim do medo do que não aconteceu e pelo último suspiro das projeções  imaginárias que bloqueiam.

É por isso que antes de mais nada , é chegada a hora de usar o Super Bonder e grudar os meus pés no chão pra observar direito onde estou.  Claro, não é um grude  que me proiba de caminhar – é só algo capaz de coibir que eu voe e perca minhas raízes, perca meu norte.

Sim, eu  recomendo Super Bonder, leve um no bolso!  Sonhe, sonhe, sonhe muito, mas na hora que começar a ter pesadelos grude os pés  em terra firme. Não é preciso temer  ou sofrer por antecipação.  

Nem é tão fácil assim de se praticar… mas tentar já é uma arte!

No dia em que fizemos as pazes,

Era um lugar escuro, penumbra na verdade e por cerca de meia hora *ou mais* eu ficava lá totalmente só, primeiro ouvindo meu coração e depois contemplando um vivo espetáculo  como num audio-livro…  mas há algo da poesia de Zeca Baleiro aí.

Não estava em frente as luzes da ribalta, estava atrás na meia luz, atrás das cortinas. Confesso que nunca imaginei que estar atrás pudesse me fazer tão bem, tão bem.   

De repente, reparei que a solidão não era mais vazio,  que estar junto a mim me agrava de maneira tão sublime, tão inesperada… apenas uma sensação de sentir bem, de não ter culpa, nem dívidas consigo mesmo. Sensação impagável (literalmente) e atingível em qualquer lugar do mundo.   Justo!

Foi aí que percebi que eu e minha alma estamos de bem.  Não há nada tão imprescindível e maravilhoso  quanto fazer as pazes com a própria alma.

Isso não é uma apologia ao fim da auto-crítica, é só um momento diplomático entre o que há dentro de nós.

As palavras lavam

Há dias em que resta a escrita como porto seguro.

Não se pode ver arco-íris todos os dias da vida, mas mesmo em dias de tormenta resta algo que mostra um feixe de luz, assim é a escrita para este ser que escreve, mas cada um deve ter seu porto seguro… de livre escolha.

Escrever pra mim é como limpar a alma, sem desperdiçar as alusões a sabões em pó… a escrita é o que deixa mais branco, é o desencargo, é o alívio, a poesia, o recado, enfim, é faxina do espírito.

Escrever pode tornar dias beges mais iluminados… coloco aqui a escrita, mas poderia ser qualquer outra expressão. Digamos que hoje estou num dia empoeirado,  mas sempre há a escrita que diz que tudo se lava. UFA!

 Há também aquele som amigo do telefone … é bom respirar o ar que vem de fora:  é escrita, se lava a alma é escrita.  É a escrita da vida e com essa podemos  fazer a cor do dia.

– ao meu lado e dentro de mim –

Certo dia estive pensando sobre as pessoas que quero ao meu redor, estranho pensar sobre isso – realmente não é algo em que pararia para pensar- mas parei.

Acho que o pensamento vem de uma sede absurda por gente de verdade, gente que cai e levanta (sem fingir que fazia parte da coreografia), gente que ri porque acha graça e que chora quando dói ou se emociona, enfim, gente.`

Às vezes é difícil ser gente, eu mesma admito, talvez por conveniência sobrevivamos plastificados… mas fato é que não somos de plástico, embora muitos acreditem nisso.

Pensei sobre as pessoas que quero ter ao meu lado e,  seguramente,  não são as que vêm envoltas em plástico bolha, nem as que ficam prontas em 3 minutos. Eu quero gente que não é produto, que não é instantânea…já basta a efemeridade da vida em seu todo.

 EU QUERO OS QUE FICAM POR DENTRO, os que marcam as entranhas, a alma com seu poder de gente e, claro, eu também quero ficar – quero ser parte do outro, quero existir com ele, estar dentro das suas veias.

 

E disso tudo…. que fique claro apenas que o plástico não é orgânico- ele não ficará dentro de ninguém.

.Sobre planos e atos.

Hoje tive um dia simplesmente imprevisível.

Então, páro para me perguntar exatamente sobre isso, por que raios eu vivo me planejando, se na hora sai tudo diferente. É… isso mesmo, não dá pra prever e ponto.

Hoje li algo sobre o quanto os novo meios digitais  tornaram nossa vida mais próxima e, digamos, de certa forma previsível – sim,  pois posso ouvir minha música quando quiser, ou mesmo assistir a um filme. Em partes,   isso pode carregar algum sentido, mas o que se observa da vida é que ela ainda é um rio sem foz definida.

É,  nessa hora, que paramos para reparar (ao menos deveríamos)  de onde vem a beleza da vida . Não há como negar que a beleza da vida vem da imprevisibilidade das coisas… já pensou que chato tudo determinadinho desde sempre, sem a menor espectativa, sem a menor esperança?

A princesa não esperaria pelo príncipe encantado, a grávida não teria ansiedade pelo filho…muitos nem se casariam pelo medo da viuvez. QUE PORRE! 

É lugar comum que surpresas ruins também podem acontecer,  mas já que ia acontecer mesmo pra que saber antes???

Sem fugir do tema, ocorre que eu sou uma planejadora compulsiva, mas a vida depende de fatores que não estão em minhas mãos .  Não há pelo que sofrer de antemão,  é apenas viver, e claro, não esquecer que … há sempre surpresas boas, só há que se estar despreparado para elas .

Por fim, o que posso dizer é: Viva o dom da não-premonição! Viva!

Aos cuidados de Fernando Pessoa

“Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.”  Fernando Pessoa, em “O Eu Profundo”

É lindo isso que Pessoa escreveu e os pensamentos realmente tem esse poder.

Eu só discordo do fato de ele não os ter revelado, porque com o poder que eles tem, certamente acrescentariam nova luminosidade à vida e imaginem… mais amor no coração dos homens –  que gostoso que seria.

Senhor Fernando Pessoa, esteja onde estiver, peço que se retrate urgentemente.

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